As Acácias em Portugal: Novas Perspetivas para o Futuro?
27 Dez
As Acácias em Portugal: Novas Perspetivas para o Futuro?
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Esta reflexão foi impulsionada por dois motores principais: as minhas próprias questões e curiosidade relativamente à temática das invasões biológicas, no caso concreto das acácias, e, um artigo publicado recentemente pelo investigador Manuel Fernandes, do Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade do Porto, com o título “Acácias errantes, acácias infestantes: notas sobre a ascensão e queda de uma utopia florida”, cujas principais questões abordadas e desenvolvidas transcrevo abaixo, desse artigo: “(…) Que motivações poderão explicar a difusão de acácias australianas em Portugal e noutros países da bacia mediterrânica? Por que razão foram alvo de um acolhimento entusiástico? E que sucedeu para que, no decurso de um século, estas plantas caíssem em desgraça, tornando-se indesejáveis e perseguidas? (…) ”

Após 6 meses de trabalho na Plantar uma Árvore, iniciados em julho, num total de 510 horas de atividade que desenvolvi, 374 horas foram dedicadas à coordenação e participação nas atividades de campo, no âmbito do projeto Volunteer Escapes. A maioria desses trabalhos teve o foco de ação no controlo de acacial por arranque manual e descasque e, apesar do impacto visual, após o arranque das acácias, fiquei com imensas dúvidas relativamente à eficácia/eficiência desse controlo, pensando na otimização dos recursos e numa visão de médio a longo prazo.

As acácias são plantas do género Acacia, plantas exóticas invasoras em Portugal, existindo muitas espécies diferentes desse género. De um modo simplificado, são plantas exóticas porque a sua região de origem é exterior ao nosso país, muitas delas de origem australiana, e são invasoras pois têm mantido populações estáveis no espaço e no tempo, de um modo que escapou ao controlo do homem, com impactes ambientais e económicos negativos.

Estas plantas foram introduzidas em Portugal, por ação humana, na segunda metade do século XIX, a par dos eucaliptos. Um dos primeiros exemplares de acácia-mimosa em Portugal foi registado na quinta dos duques de Palmela, no Lumiar. Nessa altura, o entusiamo pelas acácias foi marcante, dado o seu crescimento rápido, o facto de serem uma fonte interessante de matérias primas, além do valor ornamental. Após a sua introdução e ao longo do tempo, as espécies de acácias de origem australiana mais disseminadas no nosso país são: Acacia melanoxylon, Acacia dealbata e Acacia longifolia. No presente, são consideradas uma ameaça ao funcionamento dos ecossistemas e os desafios associados a esta problemática são crescentes.

Relembrar o passado, a nossa história e memórias, é um exercício muito útil em variados aspetos, como por exemplo no âmbito do planeamento e controlo de espécies exóticas invasoras. Já nos finais do século XIX, a capacidade dispersiva das diferentes acácias no nosso país foi assinalada, mas esse alerta não foi o suficiente para impedir o seu cultivo continuado durante as décadas seguintes, face às necessidades da época, como por exemplo na indústria dos curtumes, onde a casca de acácia era uma matéria prima de grande utilidade.

Ao longo do último século, as profundas alterações sociais e económicas que se vão manifestando, têm contribuído para a diminuição da utilização das acácias como matéria prima o que contribui para o maior desenvolvimento e potencial invasor destas plantas. Uma questão no artigo que referi inicialmente, e que chamou a minha atenção, tem a ver com a capacidade de nos interrogarmos se serão as acácias a “causa” das perturbações ecológicas ou se serão elas o “efeito” da atividade humana, dos interesses económicos, e de uma gestão e utilização do território com imensos desafios a superar.

Face à incerteza, é essencial ir agindo em conformidade com o que se considera ser necessário e útil. Nesse sentido a P1A realiza o controlo físico nas diferentes áreas onde desenvolve os trabalhos de campo, por arranque manual e descasque. Outras técnicas que podem ser utilizadas no controlo das acácias são: o controlo químico (com herbicidas) e o biológico (em Portugal foi iniciado em 2015).

Aplicar novas abordagens com responsabilidade, numa visão de médio a longo prazo é uma via a explorar. Não demonizar seres vivos que até podem encerrar soluções promissoras e sustentáveis, a nível ambiental e económico, será outra via interessante. Por exemplo, a utilização das flores de acácias na indústria de perfumaria não chegou a ser desenvolvida em Portugal, ao contrário do que sucedeu no sul de França onde exploraram novas abordagens, como utilizar as acácias como um “recurso de risco” a integrar no sistema social e económico, de um modo diferenciado. A produção de papel, de substratos agrícolas, entre outras ideias a explorar, pode ser um caminho alternativo que estimule a valorização das acácias, de um modo responsável e sustentável.

As acácias são um dos muitos desafios no âmbito das invasões biológicas, um problema complexo, cuja investigação e conhecimento estão em constante atualização. Essa problemática não é exclusiva do nosso país. A nível nacional desde 1999 que foi reconhecida a gravidade do problema das espécies exóticas, com o Decreto-Lei 565/99 e, a nível europeu, o regulamento EU nº 1143/2014 foi desenvolvido, sendo a primeira lista de espécies exóticas invasoras publicada em 2016, trabalho que tem vindo a ser atualizado.

Transcrevo de seguida o último parágrafo do artigo de Manuel Fernandes, um alerta que considero pertinente: “(…) Precisamos de lançar um novo olhar sobre o fenómeno invasor, reavaliando os conceitos pelos quais regemos a nossa perceção. Talvez seja o momento para a antipatia dar lugar a uma “simpatia” prudente, que propicie estratégias mais adaptativas para gerir o fenómeno invasor, sem iludir o grau de incerteza que lhe é inerente.”.

Participe nas atividades da P1A: http://www.plantarumaarvore.org/porque.aspx

Texto e Fotografia: Maria João Horta Parreira, Eng.ª Agrónoma – Comunicadora de Ciência

mariajoao.parreira@plantarumaarvore.org

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